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Cafeicultura de impacto positivo: A vida de mulheres em vulnerabilidade tem sido transformada pelo café

Por Notícias Agrícolas:

Postado em: 19/09/22

 

Uma pesquisa realizada recentemente pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) mostrou que a cada minuto no Brasil, 25 mulheres são ofendidas, agredidas física ou sexualmente. Mas, você que está aqui, em um site voltado para o agronegócio, em uma coluna especial para contar as histórias do campo, deve estar se perguntando: O que isso tem a ver com a cafeicultura? Tudo.

Falamos diariamente que o café é uma cultura com peso social significativo. Os números também já mostraram que o índice de desenvolvimento humano nas áreas onde o café está inserido é elevado. E hoje, o Entrelinhas do Cafezal traz uma história que envolve uma cafeicultura de impacto positivo e de um projeto que nasceu justamente para resgatar, auxiliar e empregar mulheres em situação de vulnerabilidade.

Sabendo que os números citados anteriormente traçam uma realidade de muitos anos no Brasil, Fernanda Samaia, que nasceu em uma família de imigrantes de italianos, produtores de café, mas que escolheu seguir a vida profissional com a psicologia, encontrou na cafeicultura a oportunidade de transformar a vida de jovens e mulheres.

Como tudo começou

Para entender como nasceu o café Amor Espresso e o Selo Espresso, no entanto, é preciso traçar uma linha do tempo. Tudo começou em 1888, quando Angelo Piva, tataravô da família, chegou no Brasil aos 16 anos. Foi em 1905 que Angelo comproiu a primeira fazenda, localizada em Brotas/SP e deu início a produção de cafés.

Avançando alguns anos, foi em 1930 que Angelo se tornou também um importante exportador de café. Os anos foram passando e a família deu continuidade à produção, posteriormente com Dirce Piva, filha de Angelo a partir de 1945.

Foi em 1980 que Alberto Samaia – pai da Fernanda ingressou na produção de café da família. Formado em Engenharia Agronôminca, a família passou a ter foco em outras culturas, como laranja, macadâmia e banana. Só em 2020 Alberto resolveu retomar a produção de café e foi quando a cafeicultura da família passou a ter propósitos além do financeiro, mas renascendo com o objetivo de ser uma cafeicultura de impacto em todos os elos de produção.

Para a Fernanda, o desejo de ter a própria ONG e projetos para ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade chegou em 2019. Ela foi estudar nos Estados Unidos e em 2019 voltou ao Brasil formada em psicologia pela UCLA e com uma visão de impacto socioambiental positiva, que foi o grande fator incentivador para o nascimento da ONG Selo Amor Espresso.

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Juntos, pai e filha decidiram trilhar os mesmos caminhos: resgatar a história de produção de café da família, com cafés de alta qualidade e que transformassem a vida de todos envolvidos, do campo à xícara. Enquanto o pai focou nos trabalhos no campo, Fernanda fez um curso de barista com a finalidade de aprender para capacitar mulheres nesta mesma área, oferecer acompanhamento emocional, resgatar autoestima, curar traumas e inserir essas mulheres novamente no mercado de trabalho através do café.

“Sentia essa necessidade de criar um programa como esse no Brasil. Percebi que existiam programas, mas ainda desconexos. O trabalho do Selo Amor Espresso é proporcionar uma jornada para essas mulheres, com ajuda do começo ao fim. Com aulas de inteligência emocional, focado no dia a dia do trabalho. Garantir autonomia, prepará-las para o mercado através do universo do café”, conta Fernanda ao Entrelinhas.

Desde o início da ONG, em 2019, Fernanda já formou seis turmas com 28 mulheres, fechou parcerias com cafeterias em São Paulo e durante os primeiros três meses de trabalho continua acompanhando a virada de chave na vida dessas mulheres. Das 28, 24 mulheres continuam exercendo a função de barista em São Paulo.

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Explica ainda que se tratam de mulheres com idades entre 18 e 45 anos, e que são encontradas, por exemplo, em centros temporários de acolhimento, abrigos e comunidades de São Paulo. Fernanda relata que são mulheres que passaram por violência da mais diversas formas e que precisam de impulso para voltar ao mercado de trabalho.

“São mulheres que sequer ouviram falar de café especial na vida. Por isso, durante a jornada, tempos aula de cupping para que elas entendam de ponta a ponta como o café pode trazer um universo de possibilidades”, afirma.

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A produção em Brotas 

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Exercendo ESG na prática, a produção de café em Brotas é também sustentável. Fernanda conta que juntos, pai e filha optaram pelo sistema agroflorestal com plantação de macadâmia entre as ruas de café para que além de sustentável no campo, os negócios da família também garantissem uma rentabilidade positiva.

“Meu pai sempre esteve muito aberto para novas práticas. Como retomamos a produção em 2020, ele ainda está investindo. Mas já temos terreiro suspenso, utilizamos de técnicas que tragam o minímo de impacto ambiental, nossa irrigação é por gotejamento, utilizamos composto orgânico e tudo isso para ser uma cafeicultura de impacto positivo também na lavoura e no financeiro”, comenta.

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Utilizando mais de uma variedade, a família em 2022 colheu a segunda safra de café arábica. E no primeiro ano o perfil da bebida já se destacou no mercado, com pontuação acima de 80 anos na escala Specialty Coffe Association (SCA) e com um mercado promissor pela frente.

Por falar em mercado, as vendas de qualquer café da Amor Espresso também se conectam com os projetos sociais da família. 5% do lucro é revertido para o projeto Selo Amor Espresso. Fernanda explica que o grande objetivo é conseguir resgatar mais mulheres, mas principalmente mostrar ao consumidor final que o café que ele está comprando é fruto de uma cafeicultura positiva e de transformação em muitas vidas.

 

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Recentemente o Amor Espresso conquistou mais episódio de sucesso: O lançamento da própria cafeteria, que Fernanda abriu em sociedade com seu irmão Rodrigo Samaia, onde o cliente prova o café da família preparado e servido pelas baristas formadas na ONG Selo Amor Espresso.

“É a realização de um sonho, mas queremos seguir trabalhando. Abrir mais cafeterias para agregrar mais mulheres e crescer também como produtor e exportador, melhorar a qualidade desse café. Ajudar mulheres e ensinar esse cliente o valor que esse café especial tem”, finaliza.

 

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